Olhar impressionista

A primeira bailarina - Edgar Degas

Desejo aos meus amigos um olhar impressionista neste momento. Que não enxerguem a realidade com olhos de cientista, descritivos; mas olhos de artista, capazes de lançarem-se sobre o que vêem – sem medo. Que lembrem que amanhã o hoje é passado. Por isso mesmo, tentem capturar o momento, o instante, o agora. Que tudo muda, e a graça está justamente na mudança. Espantem-se com o banal… Surpreendam-se e encantem-se constantemente mesmo com aquilo que vêem todos os dias. Dedico também um diálogo muito inspirador de um filme (Moça com brinco de pérola), que tem muito a ver com a mensagem que quero deixar. Bem, não posso deixar de transcrever aqui.

Ele abriu a janela ao meio, o que encheu a sala de ar frio.
- Venha cá, Griet.
Deixei os panos no parapeito e dirigi-me para junto dele.
- Espreita pela janela.
Espreitei. Estava um dia ventoso, com nuvens que desapareciam por trás da torre da igreja.
- De que cor são aquelas nuvens?
- São brancas, senhor.
- São? – perguntou ele, erguendo ligeiramente as sobrancelhas.
Olhei-as novamente.
- E cinzentas. Talvez vá nevar.
- Vá lá, Griet. Consegue fazer melhor do que isso. Pensa nos teus legumes.
- Nos meus legumes, senhor?
Ele moveu a cabeça ligeiramente. Estava outra vez a irritá-lo. O meu maxilar contraiu-se.
- Pensa em como separaste os brancos. Os nabos e as cebolas. São do mesmo branco?
De súbito compreendi.
- Não. O nabo tem verde a cebola amarelo.
- Exatamente. Então, que cores você vê nas nuvens?
- Há azul nelas – respondi depois de as examinar durante alguns minutos. E… Amarelo também. E algum verde!
- Estava tão entusiasmada que até apontei. Tinha olhado para nuvens durante toda a vida mas era como se as visse pela primeira vez naquele momento.
Ele sorriu.
- Há de descobrir que há pouco branco puro nas nuvens, embora as pessoas digam que são brancas.

(Tracy Chevalier)

Que aprendamos com os impressionistas! Paremos de tentar descobrir qual seria a real cor das nuvens… ou mesmo de dizer que é a branca. Não existe o ser puro, abstrato. Mas o estar impuro, mutável. Aceitemos que tudo está em mudança. Que o próprio ato de olhar já confere impureza àquilo que se olha. Ao olhar, provocamos mutação. E isso não é necessariamente algo ruim. “And your hand is held open, intentionally. Or just what I want to see?” (Kings of Convenience – Sorry or please). Desculpem-me, mas pouco importa se o que eu vejo é real ou imaginação minha. O que me interessa é que eu vejo.

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