O sal

Saiu pra comprar sal. Nem sempre a doce vida é a melhor vida. Doce enjoa. O sal dá sede. Sal deixa a gente vivo. Ele saiu pra comprar sal.
Deixou a casa acesa. A luz em cima da mesa. A busca é sempre a mesma: levar o sal pra casa, tempero de uma risada, graça até pro copo d’água, mas a sede é sempre vesga.
Ele cruzou esquinas, cruzou os dedos, mal sabia. O sal era a ausência que ele deixava quando saía, era o frio de estar sozinho, o sal era só até a esquina, era ela sentir a falta um pouquinho. E ela sentiu. Por isso temperou os planos pro futuro com têmporas tensas e empolgadas. Visões um tanto salgadas, mão molhada, ela sob a luz daquela mesa. Esfomeada. Esperou. Mais um tanto de espera, mais um tanto de espera, mais um tanto de espera, mais um tanto de espera, ele não voltou. Pesou demais a mão no tempo e o tempero dessalgou.
Ela escreveu na geladeira “o sal acabou”. E saiu pra comprar um doce, mas a busca é sempre amor.

(Luciana Elaiuy – O sal, retirado da edição de número 43 da revista Piauí)

De como a busca se modifica ao se alterar a última letrinha do pronome. De como são iguais esses seres a que tais pronomes se referem. De como o tempero muda com o tempo. De como precisamos ir atrás do sal ou do doce, conforme a necessidade – sempre na proporção da vontade.

1 Comentário

  1. mrs. jones disse,

    16 16UTC abril 16UTC 2010 às 18:59

    Post novo \o/


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