Freedom

(A Liberdade é Azul)

Um mergulho, uma sensação de estar isolada em si. Essa falsa liberdade, esse construir nada a partir do vazio. Mas a música continua a ser tocada na sua cabeça. De nada adianta o mergulho. “É preciso agarrar-se a alguma coisa“. Até mesmo para se afastar do azul do mundo… Tela preta.

Show a view to someone who chose to live his whole life in cave
He’ll raise his arms to protect his eyes from learning
And the blindness to which he belongs
This time it’s me, it’s me
Cascades of chances i’ll just let them be
The unfamiliar is right below our eyes
Don’t look for what we know
The unfamiliar is right below our eyes

But freedom, freedom never greater than its owner
Freedom is the mastery of the known
Freedom, freedom never greater than its owner
No view is wider than the eye

(Kings of Convenience – Freedom and Its Owner)

Expressionismo

Agora lembrei o porquê de eu ter ficado tanto tempo sem tocar nessa parte da estante… Certas fases ocupam muito espaço no fundo do armário – ah, quem dera isso fosse apenas literalmente! Quando muita memória se junta desse jeito, fico pouco à vontade. Sinto ânsia por fuga.

Fuga, fuga… fuja!

(E o armário continua lá…)

O sal

Saiu pra comprar sal. Nem sempre a doce vida é a melhor vida. Doce enjoa. O sal dá sede. Sal deixa a gente vivo. Ele saiu pra comprar sal.
Deixou a casa acesa. A luz em cima da mesa. A busca é sempre a mesma: levar o sal pra casa, tempero de uma risada, graça até pro copo d’água, mas a sede é sempre vesga.
Ele cruzou esquinas, cruzou os dedos, mal sabia. O sal era a ausência que ele deixava quando saía, era o frio de estar sozinho, o sal era só até a esquina, era ela sentir a falta um pouquinho. E ela sentiu. Por isso temperou os planos pro futuro com têmporas tensas e empolgadas. Visões um tanto salgadas, mão molhada, ela sob a luz daquela mesa. Esfomeada. Esperou. Mais um tanto de espera, mais um tanto de espera, mais um tanto de espera, mais um tanto de espera, ele não voltou. Pesou demais a mão no tempo e o tempero dessalgou.
Ela escreveu na geladeira “o sal acabou”. E saiu pra comprar um doce, mas a busca é sempre amor.

(Luciana Elaiuy – O sal, retirado da edição de número 43 da revista Piauí)

De como a busca se modifica ao se alterar a última letrinha do pronome. De como são iguais esses seres a que tais pronomes se referem. De como o tempero muda com o tempo. De como precisamos ir atrás do sal ou do doce, conforme a necessidade – sempre na proporção da vontade.

Geração espontânea do amor

Já acreditara alguma vez no amor como enriquecimento, como exaltação das potências intercessoras. Certo dia, deu-se conta de que seus amores eram impuros porque pressupunham essa esperança, enquanto o verdadeiro amante amava sem esperar o que quer que fosse fora do amor, aceitando cegamente que o dia se tornasse mais azul e a noite mais doce e o bonde menos incômodo.

(Cortázar – O Jogo da Amarelinha)

Amor à primeira vista não seria nada mais que uma atração que ocasionalmente deu certo? Instantes de atração mútua ocorrem com uma frequência relativamente alta. Daí dessa essa atração desenrolar algo que costuma ser chamado de amor… nisso reside a improbabilidade de que sempre falo. Uma possibilidade com muitos pressupostos. E quando essa possibilidade se concretiza, confere-se toda a culpa àquele instante inicial de atração. Com isso, a gente traz um pouco de lirismo para o nosso cotidiano. Ah… foi coisa de amor à primeira vista, sabe? Sei… e como sei!

Surgem, assim… quando? por quê? como? Não se sabe, apenas surgem! Seriam autopoiéticos? Sei lá! Só sei que são, e é o que me importa! Sem explicações exteriores ou internas. Sem razão… Mas hein, como tem razão esse tal de amor!

Mas se a ciência provar o contrário, e se o calendário nos contrariar
Mas se o destino insistir em nos separar
(…)
Se dane o evangelho e todos os orixás
Serás o meu amor, serás, amor, a minha paz

(Chico Buarque – Dueto)

Dos relacionamentos estáveis

Essa mulher é como música de uma única nota… ou como poesia barata, com rimas pobres, de um poeta inferior: nota máxima em previsibilidade e monotonia; mínima em espontaneidade, alegria e beleza.

Silêncio eloquente

Vim só dar despedida

Eu quis te conhecer, mas tenho que aceitar
Caberá ao nosso amor o eterno ou o não dá
Pode ser cruel a eternidade
Eu ando em frente por sentir vontade

Eu quis te convencer, mas chega de insistir
Caberá ao nosso amor o que há de vir
Pode ser a eternidade má
Caminho em frente pra sentir saudade

(Marcelo Camelo – Janta)

Por não seres aquela que eu buscava
Nem do meu ontem nada recordares,
Por não haver, aquém e além dos mares,
Alguém mais relva e seda, avena e lava;

Por efêmero e o vão me revelares
Dos ídolos antigos que adorava
E por assim sem cânticos chegares
Quando de tudo eu já desesperava;

E por seres feliz e por quereres
A alguém que é feliz, até o resto
De mim, quando talvez nem mais viveres,

Serás, inesperada e longe amiga,
Presente em todo pensamento, gesto
E palavra de amor que tenha e diga.

(Vinícius – Soneto da Mulher Casual)

Em homenagem a um outro Vinícius. Ainda mais uma vez, adeus.

Sou o que não quero perder

Sou aquele pedacinho de inocência que deixei no berço, sou aquela imaturidade que perdi na adolescência, sou aquelas insanidades que cometia quando não possuía responsabilidades, sou aquela doçura infantil que tornou-se amarga ao crescer… Sou aquela falta de senso, sou aquele ser que escutava tudo e sobre tudo perguntava, que hoje fecha-se em lábios calados… Sou a antiga pureza que foi profanada. Sou o mancebo que tanto cortejava, e que não se importava em receber nãos. Sou aquela esperança, hoje tão rala, que aos poucos, esvai-se do meu coração.  Sou feita do amor daqueles que me tanto amaram nesta vida passageira, sou feita do afeto tão precioso dos meus escassos, porém dedicados amigos. Sou a princesinha que cansou de sonhar acordada com seu príncipe encantado, sou a donzela que largou a vida de rainha atrás de aventuras, sou a adulta que não suporta a idéia de velhice… Sou o que perdi.

(Thais Barbiere)

Viver é melhor que sonhar
Eu sei que o amor é uma coisa boa,
mas também sei que qualquer canto é menor
do que a vida de qualquer pessoa.

(Elis Regina – Como nossos pais)

Não quero ser esse ser que perdeu o que se é. Não quero conjugar-me em tempo pretérito. Imaturidade, insanidade, romantismo… ilusão? O nome não importa muito. Não quero estancar-me em categorias tais para, em seguida, descartar quem sou. Não quero esse tipo de maturidade. Não quero desencantar-me com o mundo. Quero ter em mim aquela sabedoria infantil – ah!… as crianças e suas verdades! Quero acreditar no amor de uma vida. E em príncipes encantados, por que não? Sem castelo nem cavalo branco, mas encantado. Encantado por um tipo singular de magia… Mas sem que para isso eu precise sonhar que um dia ele virá. Sem esperar a ação de um destino em hora considerada certa. Não é um amor de uma vida dado a priori, por aquilo que ouso chamar de destino. Um príncipe que se encontra não sonhando, mas vivendo. Um príncipe de um jogo com regras humanas – imperfeitas, mas perfectíveis. Que demanda uma reconquista eterna: só assim ele será o amor. O amor de uma vida.

Unhas expressionistas

Tenho a impressão de ter meu interior expresso nas minhas unhas. É praticamente um humorômetro. Aviso: se elas estiverem sem esmalte, afaste-se. Ansiedade, tristeza, sei lá: não estou na minha melhor fase. Caso estejam roídas, pior ainda. Corra, de preferência. A minha tendência a não pensar antes de falar (e com isso ser áspera, estúpida e grossa) é incrivelmente enorme: be prepared. Agora, se eu estiver de unhas vermelhas e te achar gracinha, tenha mais medo ainda. Bem… você foi avisado.

(Don’t believe I wrote this. And I really can’t believe I’m publishing it.)

Voulez-vous?

Para quê complicar a vida calculando probabilidades, tentando controlar o incontrolável, procurando compreender a lógica ilógica do caos? A questão é: não se pode saber no presente qual das possibilidades (nem sempre previsíveis) para o futuro será concreta – isso é mais que óbvio. Não podemos prometer nada sobre o por vir, portanto – também não há o que se decepcionar, tanto mais razão para se reprimir. As decisões tornam-se mais leves quando não amparadas num futuro. Tornam-se também mais sinceras, porque conferem maior relevância à vontade do momento.

(Mas não podem desconsiderar a iminência de um futuro – em virtude disso, a decisão tem de ser responsável. A liberdade sem responsabilidade é tão alienante quanto a mão oposta dessa relação… Mas isso é papo para outro dia.)

Voulez-vous
take it now or leave it
now is all we get
nothing promised,
no regrets
voulez-vous
ain’t no big decision
you know what to do
la question
c’est voulez-vous

(ABBA – Voulez-vous)

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